Protección de autoridades a la británica (En portugués)

O ano de 2004 não deixou boas recordações na memória dos encarregados da segurança de autoridades na Grã-Bretanha. Vários acontecimentos concorreram para macular a idéia de profissionalismo e de eficiência que as pessoas associam aos serviços de segurança britânicos.
Em maio, o Primeiro-Ministro Tony Blair foi atingido por balões cheios de farinha tingida, num incidente que causou apreensão e provocou restrições quanto ao acesso de público às sessões. Afinal, os balões poderiam conter agentes químicos agressivos. Em setembro, em meio a uma grande manifestação, cinco ativistas contrários à proibição da caça à raposa entraram no plenário da Câmara dos Comuns pela porta dos fundos, tumultuando a sessão onde discursavam ministros e líderes da oposição. A sessão foi suspensa por 20 minutos e a invasão se constituiu na mais grave violação da segurança do Parlamento Britânico desde 1647. Como ficou constatado posteriormente, nenhum dos invasores, na maioria jovens, imaginava que teria êxito na empreitada. O objetivo era apenas chamar a atenção para uma causa.
Na mesma semana, em um período marcado por sombrias perspectivas de terrorismo, um repórter do tablóide The Sun anunciou que se empregou no Parlamento como garçom com falsa identidade e referências profissionais forjadas. O jornalista, que trabalhou incógnito por cerca de três semanas, chegou a ser fotografado servindo chá para o vice-primeiro-ministro John Prescott e contrabandeou para o interior de Westminster pilhas, arame, massa de modelar e um cronômetro que seriam empregados na construção de uma falsa bomba-relógio. Na realidade a segurança do Parlamento pouco mudou. Mesmo após 11 de setembro e, antes dos incidentes já citados, uma comissão parlamentar aconselhara a eletrificação e o sensoreamento de cercas, bem como a interrupção do tráfego rodoviário nas redondezas, pelo risco de atentados com carros-bomba.
Ainda no ano passado, os encarregados da proteção da Família Real também sofreram com violações. Em maio, apenas duas semanas depois de anunciar a adoção de novas medidas de segurança, um casal cujo homem se fazia passar por policial foi detido no Castelo de Windsor. Cinco meses depois, outro homem, desta vez fantasiado de Batman, escalou a fachada do Palácio de Buckingham permanecendo por cinco horas num parapeito antes de ser convencido a descer com o auxílio de uma grua. O homem de 33 anos, integrante de uma organização que luta pelos direitos dos pais na guarda compartilhada dos filhos de casais separados, estava acompanhado por um outro militante, fantasiado de Robin, que foi preso antes de escalar a fachada. Tal entidade formada por pais divorciados foi a mesma que jogou farinha no Primeiro-Ministro. A imagem de alguém vestido de Batman burlando a guarda perimetral certamente depõe contra a segurança. Por outro lado, não se concebe que um incursor dessa natureza, desarmado e vestido como super-herói, seja abatido a tiros, somente para reforçar a idéia de segurança para a opinião pública.
História e contradições
O histórico de ocorrências envolvendo a segurança da realeza é tão antigo quanto pitoresco. Num país onde zelar pela proteção dos soberanos se considerava uma missão para todos os súditos, em 1973 a segurança pessoal da Família Real compreendia apenas 13 agentes, escolhidos nos quadros da polícia metropolitana. Em março de 1974, a Princesa Anne sofreu uma tentativa de seqüestro e o único agente que protegia a filha da rainha foi baleado após sua arma (uma Walter PP calibre 7,65mm) supostamente engasgar. Naquela época se facultava aos seguranças o uso de armas de fogo e, mesmo com a arma enguiçada, o agente se interpôs entre a princesa e os atacantes, levando um tiro e frustrando a ação de captura. Imediatamente após o incidente, adotou-se revólveres Smith & Wesson Modelo 36, calibre 38” como armamento padrão, bem como se providenciou a instalação de rádios ligados na freqüência da polícia nos veículos da frota real. Além disso, vários dos carros que servem a realeza foram protegidos com blindagem e os agentes de segurança passaram a receber treinamento especial ministrado pelo SAS.
Até aquela data, imaginar que alguém viesse a atentar contra membros da Família Real não passava pela cabeça dos cidadãos britânicos. Isso mudou, no entanto, com o atentado que vitimou o Lorde Louis Mountbatten, em agosto de 1979. Personagem extremamente popular, primo da Rainha Elizabeth e último Vice-Rei da Índia, o oficial da Marinha Real era veterano da II Guerra Mundial e não utilizava segurança pessoal. Mountbatten não havia recebido qualquer ameaça de morte e foi completamente surpreendido pela explosão de seu barco pelos terroristas de uma dissidência do Exército Republicano Irlandês. Uma bomba com cerca de 25 quilos de explosivos foi plantada no pesqueiro do nobre e detonada por controle remoto quando o barco já se afastava do porto. Matando quatro pessoas, a ação dos terroristas se revelou contraproducente: sofreu ampla condenação mundial, redundou numa maior colaboração com as forças de segurança britânicas e num significativo número de prisões. Durante a década de 1970 as ações do IRA se fundamentavam na crença de que “o governo britânico não estaria disposto a pagar um preço alto para sustentar seus interesses na Irlanda do Norte”. Assim, dezenas de violentos atentados foram realizados.
Em junho de 1981, enquanto a Rainha Elizabeth desfilava montada a cavalo, um jovem, em meio à multidão, disparou seis tiros de festim na direção da soberana, que demonstrou extremo sangue frio para dominar seu cavalo em meio à correria. Quem quer que tenha atuado na segurança de dignitários sabe o quão difícil é proteger alvos de grande visibilidade, deslocando-se em baixíssima velocidade e em meio a grandes multidões. No evento em questão, pelo menos não havia o problema dos edifícios com suas incontroláveis janelas e terraços. Porém, a despeito de toda a proteção ostensiva disposta no perímetro do desfile, realmente era difícil impedir um atirador solitário, com uma discreta arma curta, no meio de tantas pessoas. Quis o destino que os tiros fossem de festim.
Um ano depois, Michael Fagan, um jovem desempregado, burlou toda a segurança do Palácio de Buckingham e adentrou nos aposentos reais. Sentado na cama da rainha, conversou respeitosamente com a soberana que chamou discretamente a segurança e ainda aguardou por quase 30 minutos, até que os policiais chegassem ao seu quarto. Mesmo com a comoção de um evento que realmente poderia ter resultado na morte de Elizabeth II, apenas em 1986 a segurança das residências reais veio realmente a receber prioridade, com a instalação de sistemas eletrônicos de detecção sofisticados.
Em 1987 oficiais de polícia do sexo feminino foram admitidas na segurança real pela primeira vez e passaram a ser uma companhia constante dos então pequenos príncipes e da Rainha-Mãe. Em 1989, logo após a descoberta de um grande paiol de armas e explosivos do IRA, uma equipe de três detetives da Scotland Yard aproveitou-se de que a Família Real estaria em uma de suas casas de campo e simulou uma incursão de terroristas em Buckingham. Vestidos com roupas escuras e com seus rostos pintados de preto, os falsos terroristas escalaram o muro e circularam pelos jardins. Como ninguém deu conta da presença deles, acionaram um sensor de alarme. Porém nem assim foram apanhados. Posicionaram-se do alto de árvores e permaneceram observando a correria dos guardas. Ao final de três horas, saíram do palácio por onde entraram e reportaram o resultado do teste aos seus estarrecidos superiores.
Em novembro de 2003 o tablóide Daily Mirror publicou uma série de matérias de um jornalista que conseguiu emprego no Palácio de Buckingham usando referências falsas. As reportagens davam detalhes das preferências da rainha para o café da manhã, fotos dos aposentos reais e o relato dos deveres do jornalista que incluíam entregar chocolates nos aposentos que seriam ocupados pelo Presidente dos Estados Unidos George W. Bush e esposa.
Para os profissionais acostumados com a proteção de dignitários em outros países, a forma de operar dos britânicos pode ser considerada, no mínimo, perigosamente relaxada. Durante toda a II Guerra Mundial a segurança aproximada de Winston Churchill esteve a cargo de meia dúzia de pessoas. Porém, agindo com notável inteligência, frustraram pelo menos um atentado espetacular que vitimou um sósia do primeiro-ministro. Hoje, o Primeiro-Ministro continua residindo em Londres, no mesmo endereço, guarnecido por câmeras de circuito fechado de televisão e, normalmente, por um ou dois policiais na porta.
O trabalho de atuar na segurança pessoal da realeza britânica é extremamente difícil. A imagem da realeza não pode se ver comprometida por acovardar-se diante do perigo. Durante a II Guerra Mundial, os membros da Família Real permaneceram na Grã-Bretanha contrariando os que preferiam vê-los em segurança no Canadá. A rainha dificilmente participa de exercícios de treinamento da segurança. Entretanto, em casos extremos, se submete aos ditames da segurança.
Em 1995, na África do Sul, uma enorme multidão entusiasmada com a presença do Casal Real cercou-os e obrigou a segurança a retirá-los rapidamente do campo de treinamento de rugby e cricket que visitavam. Ao contrário de outros dignitários como presidentes e ministros, não se concebe colocar a mão sobre a rainha para “cobrir e evacuar”. A falecida Princesa Diana também se constituía num sério problema para a Scotland Yard, pois não aceitava o acompanhamento de seguranças. O fato é que, por mais graves que tenham sido as ameaças terroristas enfrentadas até hoje, principalmente depois de 11 de setembro, não se adotou cercar o Palácio de Buckingham ou o Parlamento com carros de combate ou mísseis antiaéreos, a exemplo do que foi feito em Washington.
Certa vez, abordando algumas dessas contradições em conversa com um ex-militar inglês que agora atua na área de segurança privada, ele me respondeu de forma sintética: “Os britânicos simplesmente são assim”. Talvez o meu amigo tenha razão, mas que ninguém imagine que nos referimos a profissionais neófitos ou incompetentes. Com certeza há planejamentos de segurança elaborados e que certamente, como é próprio da nossa atividade de segurança, enfrentam toda sorte de resistências para sua implementação. Particularmente tenho minhas dúvidas se o departamento de segurança participou da seleção dos repórteres que se empregaram com credenciais falsas no Palácio Real e no Parlamento. Será que alguém imaginou incluir a segurança na seleção ou os questionários de referências eram checados apenas por amostragem?
Na Grã-Bretanha a parcela do orçamento gasto para a manutenção da segurança vem sendo substancialmente reduzida ao longo dos anos. Lá também, como no Brasil, as pessoas resistem a medidas que têm por único objetivo salvaguardá-las. A verba diminui, há restrições de toda ordem, mas a segurança não diminui suas responsabilidades e, como aqui, responde e paga por todos os erros, sejam diretamente cometidos por ela ou não.
Não se deve aquilatar a competência dos homens e mulheres da segurança britânica, julgando-os inflexivelmente por nossos padrões. Os países, os povos e as culturas são diferentes. É fato que a segurança só “aparece” nos jornais em face de suas eventuais falhas, mas ninguém fica sabendo dos riscos que foram contornados ou dos atentados que foram frustrados pela atuação profissional, discreta e perseverante da segurança.
Hoje sabemos que equipes do SAS periodicamente inspecionam as dependências dos palácios reais e isso se deve à necessidade de reavaliar os riscos de segurança, bem como planejar uma rápida intervenção no caso de uma invasão ou tomada de reféns. Os êxitos de uma segurança ou de um grupo anti-terrorista podem ser medidos pelas ocorrências evitadas.
Não se faz segurança de autoridades sem um forte suporte de inteligência; e inteligência obrigatoriamente pressupõe a manutenção do segredo acerca das informações obtidas, de suas fontes e dos procedimentos adotados. Ações de inteligência já frustraram ataques terroristas potencialmente sérios e graves, com morteiros improvisados, ao Palácio de Windsor (em 1994) e à residência do Primeiro-Ministro. Em 2004, uma operação anti-terrorista de grande envergadura levada à cabo em toda a Grã-Bretanha prendeu mais de 20 pessoas e capturou mais de 500 quilos de explosivos. Quem pode garantir que o fato de um atentado como o de 11 de setembro não ter ocorrido na Corte de São Jorge não seja o maior tributo à competência dos profissionais de segurança britânicos? Certamente há perspectivas de perigos muito maiores com as quais se preocupar do que uma atabalhoada e pacífica intrusão de pais desesperados vestidos de Batman e Robin.

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